A BBC News Brasil publicou recentemente uma reportagem intitulada “Por que muita gente deixou de postar nas redes sociais?”. O artigo, além de apresentar dados e informações que oferecem respostas a essa questão, inclui uma entrevista com o escritor Kyle Chayka, autor do livro “Mundo filtrado: como os algoritmos nivelaram a cultura”. Em um artigo para a revista norte-americana The New Yorker, Chayka sugere que a sociedade pode estar caminhando para o que ele chama de “postagens zero” – um ponto em que as pessoas percebem que compartilhar suas vidas online não vale mais a pena.
Na reportagem da BBC News Brasil, são apresentados dados que indicam que aproximadamente um terço dos usuários de redes sociais está postando com menos frequência do que há um ano. Essa tendência é mais perceptível entre os adultos da Geração Z – indivíduos nascidos entre 1995 e 2010.
Na visão de Kyle Chayka, esse fenômeno está acontecendo devido a dois aspectos principais: por um lado, devido a lógica dos algoritmos que “distribuem” e “impulsionam” os conteúdos nas redes sociais digitais. Por outro, a “vida normal, de pessoas normais” não é mais o assunto central nesses ambientes, que agora estão cheios de anúncios e de influenciadores pagos para anunciar patrocinadores.
Para Chayka, ao mesmo tempo em que as pessoas estão perdendo a vontade de postar fotos ou vídeos de suas vidas, elas estão cada vez mais engajadas em aplicativos de conversa – estilo WhatsApp – onde podem enviar mensagens diretamente para sua rede de contatos, ou, onde também podem construir vínculos mais diretos a partir de interesses compartilhados com outras pessoas. Ou seja, onde podem verdadeiramente construir relações em comunidade.
De fato, tanto a reportagem da BBC News, como outras que analisamos, mostram que esse movimento vai muito além de um êxodo digital: ele revela uma profunda fadiga da performatividade virtual. Usuários de redes sociais digitais estão se cansando da curadoria constante da própria imagem, da busca obsessiva por validação em likes e da superficialidade que, paradoxalmente, gera um vazio de solidão. Esse cansaço, no entanto, não é um desejo de isolamento, mas o sintoma de um anseio por conexões mais autênticas e significativas.
Não é por acaso que se multiplicam, neste momento, negócios que promovem conexões interpessoais diretas – pessoa a pessoa – sem mediações digitais viabilizadas por celulares, principalmente. Inclusive, na nossa pesquisa sobre Bem-Estar Integral, nós ressaltamos esse crescimento, analisando casos muito interessantes como o The Offline Club, negócio que surgiu em 2024 com o propósito de juntar pessoas em ambientes offline para celebrar o “tempo real.” Hoje, pouco mais de um ano desde seu início, o The Offline Club já está presente em dezesseis cidades da Europa.
Esse movimento de migração das interações para o espaço físico e a busca por pertencimento em comunidades reais está se tornando Hype. Isso porque nós realmente estamos testemunhando a valorização crescente de encontros presenciais, onde a conversa flui sem filtros, a escuta é ativa e a memória é construída coletivamente, não por meio de um algoritmo. E esse é justamente um dos pontos que o livro de Kyle Chayka também explora. Na visão dela, os algoritmos estão “achatando” as vivências, experiências e subjetividades das pessoas, e isso está contribuindo para produzir esse efeito “fuga das redes” na atualidade.
Nada simboliza melhor isso do que um peculiar fenômeno que aconteceu recentemente na Alemanha: pessoas marcaram encontros, em lugares públicos, para comer pudim com garfo. À primeira vista, isso soa como meme pronto. No entanto, há um significado sociológico importante: essa atividade é um antídoto à pressa digital, um convite para desacelerar, para se dedicar a uma tarefa deliberadamente ineficiente e, o mais importante, para compartilhar um momento de genuína leveza e “nonsense” com outras pessoas. É a criação de um micro-ritual comunal, um vínculo baseado em uma experiência compartilhada e fora do comum.
Esse desejo por comunidades mais humanizadas e com interesses comuns reais é a promessa de retorno do Orkut. Segundo o seu fundador, o retorno da plataforma promete priorizar “conexões humanas, empatia e segurança”, em contraste direto com o ambiente de comparação e monetização das redes atuais. É a volta retorno de uma plataforma que era famosa por suas comunidades, que iam desde de fãs de um seriado a moradores de uma mesma cidade, e isso não só por nostalgia. É um sintoma claro do mesmo anseio que leva as pessoas a saírem de casa para comer pudim com garfo: a fome por um sentimento de reconexão social real.
E você, está monitorando essa transformação para sua marca ou negócio? Fica a dica aqui: acompanhe com a gente os desdobramentos desse fenômeno, pois apesar de parecer até um pouco lento, ele vem em uma crescente constante, que gradativamente envolve mais e mais pessoas. O que está na base desse fenômeno é uma mudança de valores, algo que é mais sutil, mas que geralmente é mais profundo e realmente transformador.
Créditos: Esse texto foi elaborado por Paula Visoná, coordenadora do Lab de Antecipação da Luzz Design & Branding, a partir de informações disponíveis em reportagens da BBC News e da revista New Yorker.